quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Quando o Governo Não Atrapalha, Já Ajuda Bastante. Quando Resolve Ajudar...

O Ministério da Pesca da Tailândia está finalizando seu segundo plano estratégico para os próximos três anos com os seguintes objetivos:

  1. elevar os padrões de cultivo;
  2. desenvolver novas áreas com potencial para o cultivo;
  3. melhorar o manejo pós despesca a fim de agregar mais valor;
  4. melhorar o potencial de mercado em todos os níveis e
  5. incentivar pesquisas que resultem em aumento de produção.
Além do mais está provisionando recursos da ordem de US$ 27 milhões para 20 projetos de melhoria da indústria do cultivo de camarão. O valor é pequeno, é verdade, não chega a 0,5 do valor das exportações de camarão.
Vale lembrar que a Tailândia possui um litoral de 3.219 km. Bem menor do que os nossos quase 8 mil quilômetros.
 Fonte: http://www.bangkokpost.com/business/economics/194183/strategic-shrimp-project-to-modernise-industry

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

É Possível Substituir a Farinha de Peixe nas Rações?

Nos últimos dias de fevereiro deste ano o Chile acordou sacudido por um terremoto devastador que atingiu a magnitude  de 8,8.  Terremotos são fenômenos naturais, caracterizados por grande liberação de energia  em ondas sísmicas que podem causar danos a milhares de quilômetros do ponto de origem.
No caso do Chile além das ondas sísmicas sentiu-se uma onda de aumento nos preços internacionais da farinha de peixe com a destruição de parte das plantas de processamento de farinha de peixe. O Chile é o segundo maior produtor, ficando atrás apenas do Peru. O Gráfico abaixo (http://www.indexmundi.com/commodities) mostra um pico de preço já no mês de abril. Péssima notícia para nós criadores de camarão, que consumimos parte da produção mundial estimada de 5 a 7 milhões de toneladas  produzida a partir da captura pequenas espécies pelágicas.

Fishmeal - Monthly Price - Commodity Prices

A aquicultura tem procurado meios de diminuir sua dependência tanto da farinha quanto do óleo de peixe. Seu crescimento não pode depender da exploração de recursos pesqueiros naturais já em estado exaustão por sobrepesca e sujeito a fenômenos climáticos como o El Niño de 1998.
Na última década, a produção de pescado oriunda da aquicultura mais do que duplicou. Hoje já é responsável por mais de 25% do pescado produzido para consumo humano. Todavia, apesar de todo o crescimento do setor, o consumo de farinha de peixe pela aquicultura estabilizou-se no patamar de 30% da produção mundial. Fizemos a nossa parte, substituindo a farinha de peixe por farinha vegetal, (quando possível), melhoramos o manejo alimentar e a eficiência das rações.
O problema é que até o momento. as proteínas vegetais não conseguem substituir integralmente as de origem animal. Não possuem alguns aminoácidos essenciais. para os peixes carnívoros e camarões.
O crescimento reduz-se e até mesmo cessa, à medida que eleva-se o percentual de substituição de farinha de peixe por farinha de soja.
Portanto, não poderemos ser os únicos responsáveis pelo colapso de alguma populações de espécies de peixes. Estima-se que para cada quilo de pescado produzido, sejam consumidos 2 a 5 kg de peixe na forma de farinha. No caso do camarão marinho a proporção é de 2,81:1. Parece muito, mas a avicultura e a suinocultura são os maiores consumidores de farinha de peixe em termos absolutos. Somente 30% do pescado utilizado para fabricação de farinha é transformada em ração para aquicultura. todo o restante é utilizado para a fabricação de aves, suínos e outros animais.
Encontrei um  figura bem interessante em Naylor et al. [2] que mostra as relações entre o cultivo de peixes e camarões e a pesca. Nela se pode ver que o bycatch (27 milhões de toneladas) é quase do mesmo tamanho do que é retirado para a produção de farinha (30 milhões de toneladas). Destas, somente 10 milhões viram ração para aquicultura, o restante vai para suinocultura e avicultura.


Leia mais nas referências abaixo.


[1] D. Kristofersson and J.L. Anderson. Is there a relationship between fi sheries and farming? Interdependence of fi sheries, animal production and aquaculture. Marine Policy, 30(6):721 725, 2006.

[2] R.L. Naylor, R.J. Goldburg, J.H. Primavera, N. Kautsky, M.C.M. Beveridge, J. Clay, C. Folke, J. Lubchenco, H. Mooney, and M. Troell. Effect of aquaculture on world fish supplies.  Nature,  405(6790):1017 1024, 2000.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

A Explosão da Plataforma da BP no Golfo do México

A plataforma Deepwater Horizon, alugada pela BP, explodiu em 20 de abril e só em 15 de julho se conseguiu estancar o vazamento de petróleo pela primeira vez. Desde então, mais de 600 milhões de litros vazaram para o Golfo do México. Some-se a isto, milhões de litros de dispersantes tóxicos foram utilizados para diluir o óleo. Este é sem dúvidas o maior desastre ambiental, afetando a economia de cinco estados e prejudicando ecossistemas delicados.
O impacto na indústria pesqueira americana é enorme. As pessoas estão com medo de consumir pescado e até mesmo de pescar. Como consequência o consumo de peixes e camarões caiu pela metade na região. Sua recuperação poderá levar décadas. Isto, todavia, não afetará o consumo de camarão como um todo. 90% do camarão consumido nos Estados Unidos é importado. Não haverá, portanto, nenhum ganho marginal importante de mercado para os produtores de camarão da América do Sul ou da Ásia. Mesmo assim, a produção de camarões em cativeiro deve sair fortalecida desse triste episódio.
Desde a explosão da plataforma, as autoridades estão tentando determinar a causa da morte de diversos animais no Golfo. O resultado disto irá determinar quantos milhões a BP deverá desembolsar em indenizações, que costumam ser bem mais caras no caso de espécies que encontram-se em processo de extinção.
Para nós carcinicultores, chama atenção a autópsia de uma pequena tartaruga marinha realizada na Universidade da Flórida. Possivelmente “morta” em consequência dos eventos ocorridos no Golfo do México.
Durante a autópsia, o veterinário descobriu que sua última refeição tinha sido camarão que não faz parte da dieta normal desta espécie em particular. Não havia sinal de contaminação por óleo. As suspeitas, então, caíram sobre a pesca comercial de camarão. Deveria haver algo de errado com os petrechos de pesca utilizados, quer dizer com os TEDs (turtle excluder devices). Estes dispositivos permitem o escape das tartarugas quando apanhadas pelas redes de arrasto dos barcos camaroeiros. Sem eles, as tartarugas morrem por afogamento ao ficarem presas nas redes. As evidencias mostram que a mortalidade, por afogamento, de tartarugas sempre aumenta quando inicia-se a pesca do camarão no Golfo. De maneira fraudulenta os teds são desabilitados.
Isto chega a ser vergonhoso para uma indústria que afirma produzir de modo mais ecologicamente do que os aquicultores, e que taxou meio mundo com alegativa de dumping em uma arrogante tentativa de mascarar a sobrepesca e seus altos custos de produção.
Isto, sem falar no custo em vidas humanas ocasionado na atividade pesqueira. Os pescadores estão entre as categorias com os maiores índices de acidentes e mortes no trabalho, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). A pesca comercial de camarão é de longe, a mais perigosa. Muito mais do que aquelas pescarias de caranguejo no mar de Bering que costumam ser documentadas no canais de TV a cabo. Na última década o total de mortes chega a 55, contra 12 na pesca de caranguejo, como conclui a pesquisa realizada pelo National Institute of Occupational Safety and Health, cujo link para o relatório é este: http://www.cdc.gov/mmwr/preview/mmwrhtml/mm5927a2.htm?s_cid=mm5927a2_e Quais seriam os números para o Brasil, onde segundo a mesma OIT a informalidade na pesca chega a 87%?









sexta-feira, 26 de março de 2010

Os Dinoflagelados

Entre eles existem os bons e maus, as vezes são animais ou são vegetais. Tanto podem ser predadores como parasitas. Habitam a terra há várias centenas de milhares de anos e formam uma parte importante do fitoplâncton tanto em ambientes marinhos quanto de água doce. Muitas espécies de dinoflagelados são capazes de produzir neurotoxinas muito potentes, que são nocivas ao homem, aos mamíferos marinhos, peixes, aves aquáticas e a vários outros elementos da cadeia alimentar. Este é um fenômeno, normalmente, associado ao que costumamos chamar de maré vermelha e ocorre em qualquer ambiente marinho. Há casos, porém, em que pode haver acúmulo de toxinas sem que haja mudança de coloração da água. O inverso também é possível.

Muitas espécies são capazes de realizar a fotosíntese mas outras, alimentam-se ingerindo outro fitoplâncton. Daí serem classificados ora como animais, ora como vegetais. Outra característica muito importante dos dinoflagelados é a bioluminescência de algumas espécies que proporciona belas visões quando a água agita-se com o quebrar das ondas ou pela passagem de uma embarcação. Isto também pode ser observado em viveiros de camarão, principalmente se há aeradores funcionando.

São os dinoflagelados que tornam possível a existência de recifes de coral, através de uma relação em que ambos os organismos beneficiam-se. Corais associados a dinoflagelados calcificam muito mais rápido e podem suportar melhor o fenômemo do branqueamento que ocorre quando a temperatura da água eleva-se acima do normal durante o verão.

Quado os viveiros de camarão são, inicialmente, abastecidos a qualidade da água equipara-se à da fonte de abastecimento, no que se refere à composição do fitoplâncton. À medida que o cultivo progride, a composição e abundância do fitoplâncton vai se modificando devido a fatôres tais como manejo, iluminação, salinidade, temperatura e aporte de nutrientes. Nos casos em que ocorra um excesso de nutrientes poderá resultar na dominância de uma espécie sobre as demais. Estes blooms podem produzir hipoxia ou anoxia resultando em mortalidade dos camarões que, geralmente, coincidem com dias nublados, de poucos ventos e marés de quadratura. A duração de um bloom, uma vez estabelecido, é persistente e pode durar até 10 dias. Em águas estuarinas há predominância de diatomáceas, enquanto que as cianofíceas predominam em ambientes de baixa salinidade.

Os dinoflagelados, embora, geralmente, ocorram em menor abundância, podem formar blooms, tanto em água de alta ou baixa salinidade. Resultam em mortalidade de camarões ou em baixas taxas de crescimento, que combinados podem causar em grandes prejuízos financeiros para o aquicultor.

Existe uma ampla literatura sobre este tema. Abaixo, estão algumas fontes adicionais sobre este assunto:

1) http://opinionator.blogs.nytimes.com/category/olivia-judson/


2) R. Alonso-Rodríguez and F. Páez-Osuna. Nutrients, phytoplankton and
harmful algal blooms in shrimp ponds: a review with special reference to
the situation in the Gulf of California. Aquaculture, 219(1-4):317 336, 2003.


3) J.D. Hackett, D.M. Anderson, D.L. Erdner, and D. Bhattacharya. Dino ag-
ellates: a remarkable evolutionary experiment. American Journal of Botany,
91(10):1523, 2004.



domingo, 7 de fevereiro de 2010

Influência das Fases da Lua na Muda do Camarão

Como acontece com outros crustáceos, os camarões sofrem mudas periódicas durante o seu crescimento. Mas a muda também pode estar associada a processos de regeneração e com o acasalamento. O corpo é revestido por uma carapaça rígida e articulada, que não consegue se expandir quando os animais tem que crescer. Assim, esta carapaça tem que ser frequentemente descartada. Esse processo é chamado de muda ou ecdise e quanto mais jovens forem os camarões, maior sua frequência. Camarões jovens chegam a mudar várias vezes na mesma semana, enquanto que indivíduos mais velhos podem chegar a passar mais de duas semanas sem que a muda ocorra.
O processo de muda dura poucos minutos, e em dois dias a nova carapaça estará totalmente rígida. Esta nova carapaça, ainda mole, permite o crescimento, inicialmente, pela absorção de água. O endurecimento ocorre através da deposição de sais de cálcio, que são obtidos principalmente pela ingestão da antiga carapaça. O processo é exaustivo e deixa os animais mais vulneráveis, o que pode resultar em mortalidades.
No cultivo, a muda tem implicações no manejo. Pode haver redução no consumo de alimento nos dias imediatamente anteriores e posteriores à muda. Iflui, também, sobre o cronograma de despescas, pois há sempre a necessidade de despescarmos quando o percentual de camarões em muda estiver abaixo do mínimo aceitável. Geralmente, valores inferiores a 5%.
Nos camarões, a muda é regulada por hormônios cuja liberação está associada ao fotoperíodo. O órgão X, responsável pela liberação destes hormônios localiza-se no pedúnculo ocular. Daí, acreditarmos que, como ocorre com vários outros rítmos biológicos, haja influência das fases da lua no processo. Este é um ponto bastante discutível e as opiniões são conflitantes. Entre os criadores há relatos de que a maior incidência de camarão mole ocorre durante as marés de quadratura, isto é, quando a lua encontra-se em quarto crescente ou quarto minguante. Há, por outro lado, observações de muda em massa nos dias próximos (antes ou depois) tanto da lua cheia quanto da lua nova. Época das marés de syzygya. E há, também, os que afirmam  não encontrar qualquer correlação entre as fases da lua e a muda.
Em um estudo realizado sobre os rítmos de crescimento do P. vannamei e do P. schimitti por D. R. W. Griffith e J. M. Wigglesworth (Marine Biology 115, 295-199 (1993)), as conclusões foram que no Equador, o P. vannamei criado a partir de Pls selvagens apresentava rítmos de crescimento semanal que coincidiam com a lua cheia e a lua nova. Já, esse mesmo camarão, levado para cultivo em viveiros na Colômbia, apresentava o mesmo crescimento cíclico, mas sem qualquer correlação com as fase lunares. Já o P. schimitti não apresentou nenhum padrão cíclico de crescimento.
Verificando algumas planilhas antigas, encontrei algumas contendo dados relacionado a incidência de camarão mole com as fases da lua. São resultados de amostragens realizadas em diversos viveiros com o propósito de verificar se a textura dos camarões (P. vannamei) estava apropriada para despesca. Foram 80 observações de acordo com as principais fase da lua: cheia, quarto minguante, nova e quarto crescente. Após submeter os números a uma análise de variância (one way ANOVA), o resultado mostrou não haver diferença significante entre as médias, embora o percentual encontrado seja menor no quarto minguante e na lua nova como mostra o gráfico.
Acho que dá para concluir que se a fase da lua fosse a única variável a influir na muda, o efeito seria o mesmo em qualquer localidade para a mesma espécie. A influência da lua ocorre de maneira indireta, ocasionando alterações na qualidade da água que variam de local para local, dependendo de como as grandes marés que ocorrem durante a lua cheia e lua nova venham a afetar cada estuário.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

IPM Índice de Produção e Manejo

IPM - Índice de Produção e Manejo

É muito difícil fazer uma comparação dos resultados de cultivos em difrentes fazendas, ou do mesmo viveiro em diferentes épocas. São muitas as variáveis envolvidas: densidade de povoamento; peso médio final; manejo utilizado; sobrevivência; e várias outras. Há um informativo da Fundação CENAIM-ESPOL: Boletim Informativo nº 19 que descreve um conceito interessante para estas situações (Bayot, 2004). É o chamdo Índice de Produção e Manejo (IPM), que padroniza a produção entre viveiros independente do manejo. É calculado dividindo-se a produção total (g) pela área de cultivo (em metros quadrados). Leva em conta ainda a densidade (camarões/metro quadrado) e o crescimento médio (g/dia) ao final do cultivo. A fórmula final fica assim:





Em campo encontrei os seguintes valores para duas fazendas localizadas em dois estuários difrentes. A primeira, localizada no Rio Coreaú, apresentou um IPM=0,66 para 70 cultivos realizados entre 2002 e 2007. Em uma segunda, no estuário do rio Acaraú, obtivemos um IPM=0,60 em um total de 136 cultivos realizados entre os anos de 2001 e 2007.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Utilização de Probióticos

Por definição, probióticos são organismos vivos que, se corretamente administrados resultam em benefício à saúde do hospedeiro. O termo probiótico surgiu nos anos 60. A globalização do comércio de pescados e a intensificação da aquicultura implicaram em cultivos em maiores densidades, o que geralmente ocasiona condições de estresse aos organismos cultivados. A maior consequência, nestes casos, é a proliferação de doenças e deterioração das condições ambientais. Aqui, entram em cena os probióticos prometendo, principalmente, uma melhoria do sistema imunológico. Este é o principal argumento utilizado no marketing dos probióticos.

A utilização de produtos químicos e antimicrobianos podem resultar tanto em problemas ambientais, como em um aumento da resistência por parte das bactérias patogênicas. Embora sua utilização em aquicultura seja, relativamente recente,espera-se que a utilização de probióticos resulte em melhorias de produtividade, nutrição, controle de doenças melhoria da qualidade de água e menor impacto dos efluentes.

Existem, hoje no mercado várias suplementos de probióticos, para peixes, camarões e moluscos, como aditivos para ração ou para serem adicionados à água dos viveiros. Todos, afirmam serem capazes de manter a boa saúde dos organismos cultivados e não apresentarem riscos. A maioria dos probióticos utilizados na aquicultura pertencem ao gênero Bacillus. Pesquisas recentes mostram que a utilização de probióticos comerciais em viveiros de Penaeus vannamei podem reduzir a concentração de nitrogênio e fósforo bem como aumentar a produtividade.