quarta-feira, 25 de agosto de 2010

É Possível Substituir a Farinha de Peixe nas Rações?

Nos últimos dias de fevereiro deste ano o Chile acordou sacudido por um terremoto devastador que atingiu a magnitude  de 8,8.  Terremotos são fenômenos naturais, caracterizados por grande liberação de energia  em ondas sísmicas que podem causar danos a milhares de quilômetros do ponto de origem.
No caso do Chile além das ondas sísmicas sentiu-se uma onda de aumento nos preços internacionais da farinha de peixe com a destruição de parte das plantas de processamento de farinha de peixe. O Chile é o segundo maior produtor, ficando atrás apenas do Peru. O Gráfico abaixo (http://www.indexmundi.com/commodities) mostra um pico de preço já no mês de abril. Péssima notícia para nós criadores de camarão, que consumimos parte da produção mundial estimada de 5 a 7 milhões de toneladas  produzida a partir da captura pequenas espécies pelágicas.

Fishmeal - Monthly Price - Commodity Prices

A aquicultura tem procurado meios de diminuir sua dependência tanto da farinha quanto do óleo de peixe. Seu crescimento não pode depender da exploração de recursos pesqueiros naturais já em estado exaustão por sobrepesca e sujeito a fenômenos climáticos como o El Niño de 1998.
Na última década, a produção de pescado oriunda da aquicultura mais do que duplicou. Hoje já é responsável por mais de 25% do pescado produzido para consumo humano. Todavia, apesar de todo o crescimento do setor, o consumo de farinha de peixe pela aquicultura estabilizou-se no patamar de 30% da produção mundial. Fizemos a nossa parte, substituindo a farinha de peixe por farinha vegetal, (quando possível), melhoramos o manejo alimentar e a eficiência das rações.
O problema é que até o momento. as proteínas vegetais não conseguem substituir integralmente as de origem animal. Não possuem alguns aminoácidos essenciais. para os peixes carnívoros e camarões.
O crescimento reduz-se e até mesmo cessa, à medida que eleva-se o percentual de substituição de farinha de peixe por farinha de soja.
Portanto, não poderemos ser os únicos responsáveis pelo colapso de alguma populações de espécies de peixes. Estima-se que para cada quilo de pescado produzido, sejam consumidos 2 a 5 kg de peixe na forma de farinha. No caso do camarão marinho a proporção é de 2,81:1. Parece muito, mas a avicultura e a suinocultura são os maiores consumidores de farinha de peixe em termos absolutos. Somente 30% do pescado utilizado para fabricação de farinha é transformada em ração para aquicultura. todo o restante é utilizado para a fabricação de aves, suínos e outros animais.
Encontrei um  figura bem interessante em Naylor et al. [2] que mostra as relações entre o cultivo de peixes e camarões e a pesca. Nela se pode ver que o bycatch (27 milhões de toneladas) é quase do mesmo tamanho do que é retirado para a produção de farinha (30 milhões de toneladas). Destas, somente 10 milhões viram ração para aquicultura, o restante vai para suinocultura e avicultura.


Leia mais nas referências abaixo.


[1] D. Kristofersson and J.L. Anderson. Is there a relationship between fi sheries and farming? Interdependence of fi sheries, animal production and aquaculture. Marine Policy, 30(6):721 725, 2006.

[2] R.L. Naylor, R.J. Goldburg, J.H. Primavera, N. Kautsky, M.C.M. Beveridge, J. Clay, C. Folke, J. Lubchenco, H. Mooney, and M. Troell. Effect of aquaculture on world fish supplies.  Nature,  405(6790):1017 1024, 2000.

Um comentário:

  1. Dad,muito boa a postagem.Passa lá no meu blog,deixei um selo pra você.
    Até mais!
    Ju

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