sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

PROBLEMAS COM OS EFLUENTES?

São várias as formas de aquicultura. Variam de acordo com o tipo de organismo cultivado, a localização (no que se refere ao tipo de água: doce, estuarina ou marinha), a biomassa estocada, número de espécies cultivadas e o tipo e a qualidade da ração utilizada. É impossível fazer aquicultura sem água, e é inviável fazer aquicultura sem renovação de água. Então, não há como nos livrarmos dos efluentes e seus possíveis efeitos adversos tanto na coluna d'água quanto nos sedimentos do corpo receptor. Aliás, esta a crítica mais frequente à aquicultura. O lançamento de efluentes ocorre após a ocorrência de chuvas pesadas, durante a renovação periódica de água ou quando da drenagem dos viveiros para a despesca. Através de processos químicos e biológicos, os viveiros possuem a capacidade de assimilar parte dos nutrientes que entram no sistema sob a forma de ração ou de fertilizantes. Mesmo assim, ainda podem tornar-se potenciais poluidores em locais próximos ao ponto de descarga, apresentando riscos de eutrofização. Nas águas receptoras o oxigênio pode ser consumido rapidamente, levando à mortalidade das populações naturais de peixes e crustáceos. Todavia, Samocha e Lawrence [1997], observaram que a partir de 400 m do ponto de descarga não havia alteração nos níveis de nutrientes ou no total de sólidos em suspensão.
Os impactos sobre os nutrientes, também, ocorrem de formas variadas: são menores para a criação de camarões do que para a criação de peixes; em água doce são maiores do que em ambientes estuarinos e marinhos, e não são os mesmos para todos os tipos de nutrientes. Ocorrem na seguinte ordem decrescente: amonia, nitritos e nitratos e por último o fósforo. Não há impacto sobre os silicatos. Foi o que concluiu Sarà [2007], em um estudo sobre os efeitos ecológicos da aquicultura.
Devido à pressão de grupos de defesa do meio ambiente, é natural que os governos partam para o estabelecimento de normas quanto à emissão de efluentes. No nosso caso, temos que estar em conformidade com a Resolução CONAMA No 357/05 e a Portaria SEMACE 154/02, Art. 4o que tentam evitar os impactos negativos da poluição no corpo receptor, mas não regulamentam especificamente a aquicultura. São várias as fontes poluidoras em ambientes estuarinos, provenientes de atividade agrícolas e urbanas, tornando difícil a atribuição de responsabilidades. No nosso caso, isto representa uma preocupação a mais. A qualidade dos afluentes, principalmente naquelas instalações localizadas nas partes mais altas dos rios que cruzam várias cidades onde o saneamento básico é precário, faz com que a água de abastecimento, de início, apresente-se fora dos padrões estabelecidos pela norma.  Apenas quatro Municípios do CE tem plano de saneamento.  De modo geral, os níveis de nutrientes nos efluentes de camarão são menores do que nos efluentes domésticos. Os viveiros possuem concentrações mais elevadas de sólidos em suspensão e fitoplâncton. Entre os nutrientes predomina a amonia enquanto que nos efluentes domésticos há maior ocorrência de nitratos e fosfatos (Macintosh e Phillips) [1992]. Nos efluentes domésticos a proporção de matéria orgânica é maior do que no efluente dos viveiros, Jones et al. [2001].
Boyd [2003]apresenta uma lista de procedimentos que podem minimizar a descarga de nutrientes. Entre elas:

  • Usar fertilizantes somente o necessário para manter o bloom de fitoplâncton;
  • Povoar e alimentar a taxas que não excedam a capacidade de assimilação dos viveiros;
  • As rações devem ser de boa qualidade, estáveis e não conter excesso de fósforo e nitrogênio;
  • Alimentar de maneira conservadora, evitando excessos e garantindo o máximo consumo de alimento;
  • Reduzir ao máximo possível as taxas de renovação de água;
  • Evitar drenagem de fundo, que drena água de baixa qualidade dos viveiros;
  • Utilizar bacias de sedimentação;
  • Reutilizar a água sempre que possível.

É importante ter em mente que alterações no meio ambiente podem comprometer o futuro dos nossos negócios. Afinal a água é o nosso principal insumo. A questão ambiental é um desafio para a carcinicultura, nossos consumidores, principalmente, os corporativos começam a ter um maior engajamento em questões ambientais.
A população mundial cresce e com ela o consumo de alimentos, com o agravante de que o incremento da demanda é superior ao da oferta. A conta também é válida para o consumo de pescado, e a natureza já não consegue repor os estoques pesqueiros. A produção pesqueira durante a última década vem variando entre 88 e 97 milhões de toneladas, e a produção da aquicultura, sempre crescente, chegou perto dos 70 milhões de toneladas em 2006. Portanto, a aquicultura é uma atividade importante para o aumento da oferta de alimentos.

Referências


C.E. Boyd. Guidelines for aquaculture e uent management at the farm-level. Aquaculture, 226(1-4):101 112, 2003. ISSN 0044-8486.
AB Jones, MJ O'Donohue, J. Udy, and WC Dennison. Assessing ecological impacts of shrimp and sewage e uent: biological indicators with standard water quality analyses. Estuarine, Coastal and Shelf Science, 52(1):91 109, 2001.
I.C. Liao. The Role of Aquaculture in Upcoming Food Crisis. The Japanese Society of Fish Pathology,
44(1):1 8, 2009. ISSN 0388-788X.
DJ Macintosh and MJ Phillips. Environmental issues in shrimp farming. INFOFISH, KUALA LUMPUR(MALAYSIA)., pages 118 145, 1992.
T.M. Samocha and A.L. Lawrence. Shrimp farms' e uent waters, environmental impact and potential treatment methods. Interactions between cultured species and naturally occurring species in the environment, pages 35 38, 1997.
G. Sarà. A meta-analysis on the ecological e ects of aquaculture on the water column: Dissolved nutrients. Marine environmental research, 63(4):390 408, 2007.

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